Espaço exclusivo para motos na Rua Vergueiro divide opiniões em São Paulo
São Paulo, 03/08/2010 - Inaugurada há exatamente dois meses, a moto faixa que pega a extensão a partir do cruzamento da Avenida Professor Noé de Azevedo com a Avenida Lins de Vasconcelos – continuando pela Rua Vergueiro e Avenida Liberdade até chegar à Praça da Sé, centro da capital paulista – divide opiniões entre usuários, poder público e os representantes da categoria.

O fato é que, justamente daqui a um mês, ela perderá seu caráter experimental e passará a ser obrigatória para quem precisar sair da zona sul e ir à região central da cidade. Portanto, já está na hora de começar a dizer adeus à famosa Avenida 23 de Maio.
De acordo com dados da Secretaria Municipal de Transportes (SMT), trafegam cerca de 1.300 motociclistas, nos horários de pico na Av. 23 de maio. No ano passado aconteceram 22,5 acidentes por quilômetro envolvendo motociclistas, número que só fica atrás da Marginal Tietê, onde o número de acidentes por quilômetro passa dos 24 ao ano.
A Secretaria aponta também, que conseguiu, pela primeira vez, reverter a porcentagem de mortos em decorrência de acidentes de trânsito com motocicletas em toda a cidade. Em 2009, embora estivessem circulando 67 mil novas motos nas ruas da capital, o número de acidentes fatais envolvendo este tipo de veículo caiu 10%, ou seja, algo perto de 50 vidas foram poupadas.
Implantação
A motofaixa tem uma extensão de 3,5 km em cada sentido, está posicionada à esquerda da via e tem dois metros de largura, o que facilita a ultrapassagem, sem precisar invadir a outra parte da rua. A Companhia de Engenharia e Tráfego (CET) fez um balanço dos 30 primeiros dias de utilização da motofaixa e constatou que ela está sendo utilizada por 91% dos motociclistas que utilizam o corredor.
O órgão ainda informou que, em outra pesquisa, foi constatado que após a implantação da motofaixa, houve um aumento de 28% no número de motos circulando nos dois sentidos do corredor, no trecho próximo à Avenida Liberdade. Na soma dos períodos de pico da manhã e tarde, o volume de motos neste local passou de 1.444 para 1.852 após a criação da via. Na Rua Vergueiro, próximo à estação Ana Rosa do Metrô, o aumento foi de 11% no número de motos em circulação, que passou de 4.655 para 5.212.
Será que ela funciona?
Sem dúvida, as autoridades de trânsito estão comemorando os novos números e a redução de acidentes no corredor norte-sul. Entretanto, o problema a ser discutido envolve algo maior. Não basta apenas mudar a geografia dos acidentes de trânsito, tirando-o de um ponto específico para criar outro.
A questão que precisa ser ponderada neste caso é a praticidade a educação dos usuários. “Acho uma coisa ruim, isso só vai criar mais uma rixa entre motoristas e motociclistas. O pessoal que dirige carro vai pensar assim ‘poxa ainda bem que tiraram esses caras daqui’”. Se for assim então, daqui a algum tempo as mulheres também serão proibidas de andar na rua para não correrem risco de estupro”, compara o presidente da Associação de Motociclistas do Brasil (Abram), Lucas Pimentel.
“A faixa como somente uma faixa, nos mesmos moldes da Avenida Sumaré, é interessante. Mas ela tem erros de engenharia e foi até proposta uma comissão para isso, mas não aconteceu”, comenta. “Se é para substituir a Av. 23 de Maio, este projeto não é bem vindo, além de ser equivocado, pois com o aumento de motos circulando por ali o número de acidentes será maior”, aponta o presidente da Abram.
O técnico de informática e motociclista, João Agripino de Santana Junior, faz coro a Pimentel quanto à substituição da nova faixa. “Ela serve como alternativa e não para substituir. A 23 é uma via extensa e expressa, sem semáforos que agiliza demais o tráfego, seja de carro ou moto. Como ficaria uma moto que tivesse que acessar o túnel Ayrton Senna? Isso sem contar com o tempo gasto”, questiona Santana Júnior.
A mesma opinião é compartilhada pelo motofretista André Siqueira. “Eu não quero nem ver quando isso estiver valendo de verdade mesmo, mas se for para reduzir os acidentes espero que funcione para quem for usá-la”, comenta apontando uma melhor solução para a discussão. “Se ela fosse feita na própria 23 de Maio ficaria bem melhor do que na região da Vergueiro”, conclui.
Para o diretor comercial da GFexpress, empresa de motofrete em São Paulo, a motofaixa não fará tanta diferença. “Ficamos na região de Pinheiros, então por enquanto não há efeito algum, mas já tive reclamações de funcionários. A motofaixa desvia totalmente da marginal e da 23”, explica.
Defeitos estruturais
O presidente da Abram bate na tecla de que é preciso discutir a engenharia da obra e a educação dos usuários em geral. “O corredor é para evitar acidentes, mas tem que se pensar no comportamento das pessoas quando elas estão guiando. A fiscalização no local também é falha, precisaria de um policiamento ostensivo para que possa melhorar. Nós da Abram temos amparo técnico para ajudar o poder público e só conseguiremos humanizar e melhorar o trânsito da cidade com a harmonização do espaço público”, fala Pimentel.
“Achei a ideia da motofaixa boa, pois serve realmente como alternativa, mas logo no dia de inauguração achei um tanto perigosa. Deparei-me com carros invadindo a faixa, pedestres que atravessam sem olhar, sacos de lixo no meio, sem contar que no ponto mais crítico ela termina próximo ao Metrô Paraíso, e inicia novamente alguns metros à frente. Na região do Metrô Ana Rosa, carros ficam na faixa de motos nos cruzamentos. Enfim, basta percorrê-la e se deparar com inúmeras irregularidades”, confere Santana Júnior.
Sinalização
De acordo com a SMT, para aumentar a segurança na via, toda a sinalização horizontal foi reforçada de modo a chamar mais a atenção de motoristas e motociclistas, e as travessias foram reformuladas para conferir maior segurança aos pedestres
Para orientar os motociclistas, foram instaladas placas indicativas da nova motofaixa ao longo de todo o Eixo Sul (Av. Moreira Guimarães, Av. Ascendino Reis, Rua Sena Madureira, Rua Noé de Azevedo, Av. Domingos de Morais e Av. Ibirapuera.) e todo o Eixo Norte (Avenida 23 de Maio, R. Sto. Amaro, R. Maria Paula, Vd. Dona Paulina e Av. Liberdade).
Também foram instalados 14 novos conjuntos semafóricos, em sete cruzamentos, 2.100 m² de pintura de solo, 550 metros de gradil e 387 placas.
Alteração de trânsito
Tanto do sentido bairro/centro como do sentido centro/bairro junto à Praça Dr. Teodoro de Carvalho com implantação de contorno de quadra pela D. Júlia e R. Vergueiro.
No sentido bairro/centro junto à R. Joaquim Távora com implantação de contorno de quadra pela R. Carlos Petit, Manuel de Paiva e R. Joaquim Távora.
No sentido bairro/centro junto à R. Machado de Assis.
No sentido bairro/centro junto à R. Dr. Nicolau de Souza Queiroz com implantação de contorno de quadra pela R. Jardim Ivone e R. Nicolau de Souza Queiroz.
No sentido bairro/centro junto ao Vd. Beneficência Portuguesa.
Sucesso no Sumaré
Certamente, o que motivou a prefeitura a construir a faixa do corredor Vergueiro foi a adesão que a faixa da Avenida Sumaré teve por parte dos motociclistas. A via destinada para motos foi implantada em 2006, e foi a primeira do país a ser utilizada.
O aumento do número de motos que circulam pela avenida, de acordo com medições feitas pela CET, saltou de 300 motos/hora, em 2005, para 480 motos/hora em 2008, o que corresponde a um crescimento de 60% do fluxo de motos em circulação naquela via.
Redução de acidentes na zona oeste
Em relação aos acidentes envolvendo motocicletas, em um primeiro momento, houve uma diminuição, face ao grande crescimento da quantidade total de motociclistas que passaram a utilizar o corredor.
Enquanto o fluxo de motos no eixo Sumaré/Paulo VI cresceu 20% entre 2007 e 2008, o volume de acidentes cresceu 14%, porém, como o aumento de motos em circulação na faixa, podemos dizer que houve uma redução do número de acidentes por motocicleta em circulação na região.
A ideia para a Vergueiro tem o mesmo sentido. No entanto, com apenas 60 dias de funcionamento, já há vítimas, e Santana Júnior é uma delas. “O prefeito alega a segurança da faixa, mas durante minha viagem de resgate os bombeiros mencionaram que o número de acidentes na motofaixa está muito alto e escutei o mesmo dos médicos que me atenderam”, declara o motociclista.
O técnico de informática, que utilizava a Rua Vergueiro no sentido centro-bairro, se acidentou justamente quando vinha no sentido contrário. “Quando estava na altura da Rua Joaquim Távora, no ponto onde havia uma entrada à esquerda que foi alterada, um carro invadiu a faixa, e como eu estava muito próximo, não deu tempo de ter reação nenhuma. Peguei a lateral do carro e o retrovisor atingiu meu abdome. Com isso, fui parar de frente na mureta, quase sendo arremessado por cima dela. O choque causou uma fratura na bacia e lesões pelo corpo”, diz o motociclista.
No fim das contas, mesmo que as intenções sejam as melhores possíveis, nunca darão certo enquanto não tiver a matéria-prima, tão necessária ao ser humano: educação. “Moto sempre será um veículo perigoso, mas a educação no trânsito é fundamental para que carros e motos convivam juntos. Acho que a obrigatoriedade da categoria ‘A’ a todos os condutores faria grande diferença nessa conscientização”, pensa Santana Júnior.
“Antes de ter minha moto não pensava como motociclista, apenas como motorista e depois que tirei a habilitação para moto aprendi muito sobre o respeito, e o que uma simples mudança de faixa sem sinalização pode causar à vida de alguém”, conclui Santana Junior, mais uma vítima do trânsito paulistano.
Falando nisso...
Começou a valer ontem a proibição para motos circularem na via expressa da Marginal Tietê. A prefeitura paulistana diz que na primeira quinzena da implantação a medida será educativa, no entanto, passado esse período, o motociclista que for pego transitando pela via expressa da Marginal será multado por dirigir em local proibido e levará uma multa de R$ 85,12, fora os quatro pontinhos na carteira de habilitação.
Mesmo assim, há mais carros (35,4 milhões) do que motos (15,3 milhões) no país devido às grandes capitais. Quem vive em São Paulo pode se impressionar com a quantidade de motoboys enfileirados em grandes vias. Mas a capital paulista tem 7 motos por 100 habitantes, contra mais de 26 por 100 habitantes em Ji-Paraná, segundo município mais populoso de Rondônia -onde os ônibus urbanos não chegam a 30, contra 200 mototáxis.
Fonte: Jornal Motovrum
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