A última curva
A história de Dudu
24/11/10 - Dudu era um rapaz dedicado, tinha uma rotina admirável. Todos os dias chegava à empresa por volta das 7h30, encostava a sua moto, entrava, registrava a presença, guardava seus pertences e depois voltava para junto de sua motocicleta a fim de dispensá-la alguns minutos de cuidados. Limpava qualquer sujeira a vista, depois, pacientemente, verificava a existência de algum parafuso solto.
Cuidadoso, sempre pegava no pé dos colegas ao ver uma seta quebrada, um pneu careca e coisas do gênero. A notícia que haveria uma palestra de segurança na empresa, o que alguns consideravam tedioso, para Dudu era só alegria.
Ele era mesmo do tipo família. Nos eventos que a empresa realizava para os funcionários; lá estava ele, sempre com integrantes diferentes de sua família. Realmente demonstrava satisfação em fazer isso. A última de Dudu foi surpreender a namorada e todos os colegas fazendo um inesperado pedido de casamento bem no final de uma confraternização da empresa. Esse era o Dudu sempre de bem com a vida. E por falar em vida, sempre que podia ele falava de sua fé em Deus e de quanto isso mudara sua vida.
Ele realmente demonstrava orgulho em ser mecânico de moto, até porque foi graças ao pai que ele galgara aquela posição dentro da concessionária de motocicleta da primeira marca a se instalar no Brasil, agora uma coisa todos diziam era um excelente mecânico.
A questão é que Dudu gostava tanto de moto que nos fins de semana participava de competições de motocross, e a fama era que ele tinha talento.
Realmente ágil nas manobras, ousado nos saltos e persistente nas quedas, ele jamais descuidava de sua segurança, tanto em relação à moto, revisando-a constantemente e também em relação aos equipamentos de proteção individual, que não abria mão.
O fato é que, sem Dudu saber, a amadora competição, marcada para o fim de semana, seria vista por um olheiro de uma equipe americana em busca de novos talentos.
Tudo foi acertado pelo pai de Dudu, o veterano Prof. Ulisses, que sabendo da competência do filho e querendo poupá-lo, preferiu evitar qualquer tipo de tensão.
O dia chegou, era um belíssimo domingo de sol. Na tomada de posição, acabou ficando em quarto. No momento da largada, um pequeno problema na moto fez Dudu cair para quinto, mas sem esmorecer, ele seguiu em frente.
Não demorou muito e ele brindou a todos com um salto de gelar o estomago, que perfeição! O piloto à frente derrapou, sofreu, e Dudu rapidamente passou a sua frente, três curvas depois, outro piloto vai para o chão e lá esta Dudu, em terceiro lugar, levando seus fãs a loucura.
Mais algumas voltas e Dudu encosta no piloto que, até então ocupava a segunda posição, e aí entre manobras treinadas a exaustão e habilidades de sobra, Dudu deixa o colega de pista para trás, aí boa parte da torcida se alvoroçou imaginando o que seria o duelo que se avizinhava.
Dudu literalmente voou e fez a sua parte, algumas voltas depois lá esta ele, par a par com piloto que largou na pole e ocupara a primeiríssima posição, e isso a poucas voltas do final da prova.
Entretanto, justamente na última volta, e bem na última curva, um retardatário displicente, ao retornar a corrida após uma queda, acabou por colidir com a moto de Dudu, que vinha em alta velocidade, o que eliminou a possibilidade de ele vencer, tirou o seu segundo lugar no pódio que já estava segurado e o afastou das pistas, sendo levado às pressas para o hospital.
Felizmente ele sobreviveu e recuperou-se rapidamente. Mas a melhor notícia é que, mesmo não vencendo a prova, assinou contrato com a equipe americana e esta de malas prontas para a terra do Tio Sam, coroando assim todo o empenho de uma vida.
Assim sendo, mesmo sofrendo um revés, não desanime, pois as lutas só engrandecem a conquista.
Lucas Pimentel , 42 anos, é presidente da ABRAM - Associação Brasileira de Motociclistas, membro titular da Câmara Temática de Educação para o Trânsito e Cidadania do CONTRAN.
Tel. (11) 3338-2872 ou 2771-5590
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